sábado, 29 de dezembro de 2007

Clássico: João Gilberto - Amoroso [1977]

A intenção é: todo mês, apresentar uma obra clássica da música popular brasileira. No propósito de restaurar discos que considero essenciais, e seguindo uma linha inerente aos próprios posts do blog [já falamos de Tom Jobim, Claus Ogerman e João Gilberto], é Amoroso o primeiro álbum a ser incluído. Para marcar o fim de 2007. E Feliz Ano Novo para todos.

Fundamental É Mesmo João

Amoroso, o disco universal de João Gilberto, é sua última grande obra

João Gilberto

Amoroso [1977]
Warner/WEA


1 'S Wonderful [George e Ira Gershwin]
2 Estate [Bruno Martino - Bruno Brighetti]
3 Tim tim por tim tim [Geraldo Jacques - Haroldo Barbosa]
4 Besame mucho [Consuelo Velaquez]
5 Wave [Tom Jobim]
6 Caminhos cruzados [Newron Mendonça - Tom Jobim]
7 Triste [Tom Jobim]
8 Zingaro [Chico Buarque - Tom Jobim]


É difícil mesurar o impacto que o primeiro disco de João Gilberto, Chega de Saudade [1959] causou na música brasileira e mundial. Dezenas de personalidades, centenas de livros, milhares de canções influenciadas, todos já tentaram desvendar como o baiano conseguiu recriar e estabelecer um novo campo de atuação para a canção popular. Possível seja que nenhum outro disco em toda a história musical do país seja tão esteticamente criativo e revolucionário. Caetano Veloso definiu o álbum de João em seu livro Verdade Tropical [Companhia das Letras] como “a posição em face da feitura e fruição de música popular no Brasil que sugeria programas para o futuro e punha o passado em nova perspectiva – o que chamou a atenção de músicos eruditos, poetas de vanguarda e mestres de bateria de escola de samba”. Em suma, o disco mais importante da música do país.

Se Amoroso, disco lançado por João Gilberto em 1977, quando ainda residia nos Estados Unidos, não tem o caráter revolucionário de Chega de Saudade, pode-se afirmar ao menos que é a obra universal e de maior qualidade do cantor e violonista. Longe de promover mudanças estéticas, Amoroso é seu trabalho mais palatável a ouvidos virgens de bossa nova, se é que isso é possível. É disco do mundo, de repertório eclético escolhido com precisão para a voz e violão de João.

Aliás, em um imaginário embate entre Amoroso e Chega de Saudade, a discussão pelo melhor repertório seria calorosa. Se na estréia, João entremeou compositores tradicionais como Dorival Caymmi e Ary Barroso com os estreantes Carlos Lyra e Ronaldo Bôscoli, em Amoroso a seleção de clássicos envolve os americanos George e Ira Gershwin [“‘S Wonderful”], o italiano Bruno Martino [“Estate”] e a mexicana Consuelo Velásquez [“Besame Mucho”], numa bela profusão de línguas.

Em comum nos dois discos, os melhores momentos estão por conta do sempre presente Tom Jobim. No papel de cereja do bolo de Amoroso - que coube a “Chega de Saudade”, a música, no álbum de 1959 – aparece “Wave”, em sua versão definitiva, superando a gravada por Frank Sinatra, em 1971. É um primor. Tudo aquilo que tornou João Gilberto conhecido em todo o mundo está ali. A voz suave, cortando as sílabas no exato instante em que elas parecem se alongar desnecessariamente, o violão conduzido em sinergia rítmica com a voz e com a harmonia, e a orquestra no papel de ambiência, se incorpora aos outros instrumentos promovendo uma entidade única, o retrato e produto do que é a bossa nova.

Jobim ainda aparece em Amoroso na parceria com Newton Mendonça [dupla responsável por “Desafinado” e “Samba de Uma Nota Só”] em “Caminhos Cruzados”, com Chico Buarque em “Zíngaro” e sozinho em “Triste”. O melhor intérprete da bossa nova aliado ao seu melhor compositor. Os arranjos ficam a cargo do mestre alemão Claus Ogerman, que já havia trabalhado com Jobim em vários discos, dentre os quais Francis Albert Sinatra & Antônio Carlos Jobim, de 1967, e em The Composer of Desafinado, Plays, de Jobim, em 1963. João Gilberto teria se incomodado com o excesso de cordas dos arranjos de Ogerman. Perfeccionista beirando o chato, as reclamação de João merecem uma antologia.

Amoroso é o mais perfeito dos álbuns de João Gilberto. É límpido, sublime, não é possível ouvir uma única interferência, um único barulho que possa desmontar a estrutura harmoniosa das canções. Produzido no instante em que a bossa nova já era a expressão musical difundida no mundo todo, o disco é o último gravado na estadia do baiano nos Estados Unidos, onde morou por dezessete anos. Mereceu uma indicação ao Grammy como melhor cantor de jazz, premiação que não diz respeito à música que João Gilberto faz. Sua música deve ser encarada como a jóia trabalhada com esmero, de um brilho incalculável, nem jazz, nem samba, nem bossa nova. É música, amorosamente irrepreensível.

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4 comentários:

vinicius_bracin_01 disse...

Paciência!
Mas biografia boa tem q ser assim
polemica msm!
To curioso pra ler a nova dos Beatles
parece q muita mentira é desvendada ali.
Mas essa coisa do que é verdade e mentira eh tão realtiva em biografias quanto na propia vida.
não?

Daniel Faria disse...

é o que transforma pessoas comuns em ídolos, certo? :)
além do imensurável talento, óbvio.
abração!

vinicius_bracin_01 disse...

detalhe: escrevi no lugar o comentario
mas tá valendo!

vinicius_bracin_01 disse...

*no lugar errado
no post errado

ai na hora de corrigir o erro,
errei de novo

meu deus...